Invisível aos olhos – Será mesmo?

Vocês sabem, eu tenho uma vida bem louca, com tempo pra praticamente nada. Mas ultimamente eu tenho me permitido não ficar tão bitolada com as coisas que eu tenho pra fazer e aproveitar um pouco mais a minha vida. Se não, qual o sentido de vivê-la, afinal?

Se eu só tenho obrigações e nenhum momento pra simplesmente… curtir?

Há umas duas semanas eu estava pirando. Não sei se já contei pra vocês, mas falei disso no snapchat (segue?), que eu tenho uma mania horrível de ficar puxando as sobrancelhas. Por um tempo achei que era só uma mania boba, até que comecei a puxar pra arrancar os fios, depois comecei a puxar as duas, depois começou a doer, a ficar vermelho, a machucar…

Invisível aos olhos – Será mesmo?

E percebi que não era uma mania boba, mas um reflexo da minha ansiedade. Quanto mais ansiosa eu fico, mais minhas sobrancelhas sofrem. E já me contaram que isso é uma doença, chamada tricotilomania (tem quem puxe fios do cabelo ou cílios, eu puxo as sobrancelhas), e percebi que desenvolvi isso em uma época muito tensa da minha vida. E vira e mexe, quando estou passando por algo bizarro, eu volto a puxar.

Então que duas semanas atrás eu estava muito ansiosa. E eu não sabia porque. Eu estava puxando minhas sobrancelhas loucamente, e eu estava com o corpo tenso, não conseguia ficar tranquila, quando eu estava parada eu tinha que ficar mexendo minhas mãos, chorei, fiquei brava sem motivo com o David, enfim. Cês sacaram o nível da coisa, né?  Daí resolvi que ia me dar uma semana mais tranquila. Pensar menos em produtividade, em “preciso fazer isso, preciso fazer aquilo” e me deixar descansar um pouquinho.

Vi filme com os meninos, fui ao cinema, dormi cedo, li mais, cozinhei mais, me deixei ficar sentada na mesa depois do jantar simplesmente conversando, me permiti. Sei que parecem coisas sem muito sentido ou “nossa, faço isso sempre, Stephanie”, mas eu não faço nada disso sem me sentir culpada, pensando que deveria estar fazendo outra coisa. Mas nessa semana que passou, eu fiz um trato com a minha cabeça e falei: não vou me culpar de nada. Eu preciso disso.

E foi ótimo. Eu fiquei muito mais tranquila, os sintomas da ansiedade passaram, fiquei feliz e foi muito bom pra eu reorganizar minhas prioridades. E também recuperar o ânimo pra voltar a fazer minhas coisas.

Três parágrafos gigantes pra dizer o que queria dizer desde o começo: assisti “Le Petit Prince” (O Pequeno Príncipe!) duas vezes na última semana. Na terça, com Simon e Hugo, e estava tão exausta que dormi no cinema, gente. Mas vi uns bons pedaços e me emocionei.

Mas quis ver de novo e levei o David comigo sábado. Engraçado como as pessoas têm bode com essa história -que é o segundo livro mais lido no mundo!-, não sei exatamente porquê, talvez por ser estereotipado como livro de Miss (ó aí um preconceito bobo), ou pela história ser simples ou meio de autoajuda, mas não vejo problemas em histórias simples, se bem contadas, e nem em livros que me ajudem a ver as coisas de outra maneira ou clareiem a minha mente. Ou seja, não tenho problemas nenhum com a história criada por Antoine De Saint-Exupéry.

Li pela primeira vez esse livro faz uns anos, David que me emprestou, eu acho que faz uns cinco ou seis anos. E foi um livro marcante. Assim como foi o filme, nesse momento da minha vida.

O filme mistura a história do livro com a história de uma garotinha (que não tem nome) cuja mãe quer que ela cresça rápido demais. Que ela seja uma adulta maravilhosa. O que significa, no nosso mundo hoje, uma pessoa eficiente, essencial para o mundo capitalista e que trabalhe muito, esqueça as diversões, as histórias, as fantasias. No meio disso tudo ela conhece O Aviador, seu vizinho, que começa a lhe apresentar a história do Pequeno Príncipe. E aí a magia acontece.

No filme eles falam muito sobre ser “essencial”. Muito mais do que a frase famosa da raposa, de que somos responsáveis para sempre por aquilo que cativamos. E isso foi muito acertado. Afinal, nos dias de hoje, a gente só pode gastar nosso tempo com coisas “essenciais”. Coisas produtivas. Que vão nos dar dinheiro ou gerar dinheiro no mundo.

Tempo é dinheiro, e você tem que usá-lo bem. No filme, a mãe da garotinha arma um cronograma de dar medo até na virginiana mais organizada do mundo, com horários e obrigações para absolutamente qualquer coisa na vida da menina.

Quando ela conta que fez um amigo, a mãe olha pro cronograma, chamado de “Plano de Vida” e diz: se tudo correr como o planejado, você poderá ver sua amiga no próximo verão -dali um ano!- às quintas-feiras, das 13h às 13h30″. Pois é.

Confundimos o que é essencial, acho que hoje mais do que nunca (ou talvez só porque eu viva o hoje, e sempre tenha sido assim). Achamos que essencial é possuir coisas (como o homem que quer possuir todas as estrelas pra gerar energia pras pessoas não pararem de trabalhar), o essencial é produzir, o essencial é status. O essencial é ser essencial.

Não é. “O essencial é invisível aos olhos”, diz a raposinha. Sim, é mesmo. “Só se vê bem com o coração”, ensina ela ao Pequeno Príncipe.

Isso é uma coisa que me toca particularmente porque tem muito a ver comigo e com a minha história. Minha família nunca teve condições de me comprar coisas ou me pagar escolas caras, mas ao mesmo tempo, boa parte da família do meu pai valoriza demais o dinheiro. Demais no sentido do excesso. As coisas só valem à pena se dão dinheiro. Quando disse que ia estudar Jornalismo a primeira coisa que ouvia de todos eles eram “mas dá dinheiro isso?”.

Foda-se se ia me fazer feliz. O importante era se eu ganharia dinheiro. Não que a família seja rica, nada disso. Mas as coisas materiais têm muita importância para uma parte essencial deles, e eu fui criada um pouco com esse pensamento. Quando quis sair da Glamour, o conselho que ouvi de alguém bem próximo foi: “Tem que pensar no dinheiro. O resto você consegue dar um jeito”. Bizarro, eu sei. O “resto”, no caso, era minha busca pela felicidade.

E isso fez parte de mim um tempo (e falei disso aqui, sobre quando comecei a trabalhar com moda e me achava mais especial que as outras pessoas), até que comecei a ver quão infeliz eu era. Quão sem substância minha vida era, baseada em coisas que qualquer um pode tirar de você. Foi sofrendo por perdê-las que eu comecei a aprender de verdade que o essencial é mesmo invisível aos olhos.

O importante são as pessoas que cativamos. Os laços que criamos. O que resta, quando estamos despidos de tudo que é material. Quando você tira seu trabalho, suas roupas, suas posses, o que fica? O que ninguém poderá tirar de você?

Além do conhecimento, são as pessoas que você cativou ao longo da vida. E as experiências. Pessoas que não se importam com nada além de você, vocêzinha, sem título, sem posses, sem números de seguidores. E coisas que você se deixa viver. Que você se desafia, que você sai da sua zona de conforto.

Todo mundo quer uma vida confortável. E muitos de nós temos a chance de tê-la, ainda bem. E claro que muita gente infelizmente não. Mas ninguém precisa ganhar milhões para ser feliz. Ninguém precisa ser rico pra poder fazer coisas legais e ter pessoas legais ao seu redor. Ninguém precisa ganhar na loteria pra começar a aproveitar a vida. Nada dessas coisas que o dinheiro pode comprar preenche o vazio da nossa alma. Isso só se preenche com emoções e vivências. Pessoas, sentimentos, lembranças, memórias.

Dinheiro pode até comprar viagens, restaurantes, livros, que são coisas que nos alimentam de boas memórias, experiências, conhecimento, claro. Não tô dizendo que dinheiro é ruim. Mas muitas vezes a gente deixa ele ter uma importância na nossa vida muito maior do que ele deveria ter. Dizemos que precisamos de mais, mais e mais.

Muito mais. Precisamos de milhões. Queremos ser ricos, milionários, bilionários. Nunca nos satisfazemos. E pra isso achamos que temos que trabalhar muito mais, deixar nossos valores de lado pra ganhar mais, deixar pessoas que não sejam ‘do nosso interesse’ de lado pra ficar perto de pessoas apenas por interesse, deixar de sentir como criança pra só pensar como adulto pra ser ainda mais produtivo e só fazer coisas “essenciais”.

Tudo errado. Volta a fita. Tá tudo bem ter alegrias infantis, vibrar com coisas que parecem bobas, ser feliz com menos, não se importar em trocar de carro todo ano.

Vocês comentam muito que eu pareço ser uma pessoa leve. Simon me disse que não consegue me imaginar como aquela pessoa deslumbrada que se achava importante porque trabalhava com moda. E eu acho que sim, tô mais leve. Porque ao contrário de todas essas coisas que o dinheiro pode comprar, felicidade não pesa nada.