Vamos continuar sendo quem somos

“Prego que se destaca merece martelada”, me disse uma vez minha mãe. Deve ter sido em uma das várias vezes que eu chorei no colo dela depois de ter sido tratada mal na escola. Eu não lembro direito, só sei que ela me disse isso e nunca mais esqueci.

Minha época na escola não foi das melhores e não é algo que eu me lembre com uma gostosa sensação de nostalgia. Foi mais difícil do que legal, foram mais memórias estranhas do que deliciosas. Eu era diferente. Mas quem não é? Hoje eu acho que somos todos diferentes, só que conseguimos esconder em diferentes níveis. Alguns conseguem fingir pertencimento melhores do que outros.

Vamos continuar sendo quem somos

Todos nós temos algo que nos faz único, diferente, singular, prego que merece martelada. Não tenho dúvidas. E acho que eu não sabia me misturar direito. Eu era quem eu era e claro que na escola as coisas são um pouco piores, porque estamos com uma tonelada de inseguranças, preocupações e questionamentos em nossas costas. Seria tudo muito mais fácil se ser diferente fosse… normal. Se o fato de alguém fazer ou ser de uma maneira diferente não fosse horrível, abominável, oh meu deus, destruam essa pessoa.

Na sexta série pagaram, com um saco de balas, para uma das alunas, Ana Maria era o nome dela, me bater na saída da escola. Ana Maria era uma aluna que havia repetido de ano várias vezes, mais velha, que sempre me pedia ajuda com as tarefas e as provas. Eu passava cola pra Ana Maria na esperança que ela gostasse de mim. Eu era muito nerdinha e fazia isso com quase todos da minha sala, porque eu queria que eles gostassem de mim, que eles me aceitassem.

Ana Maria, naquele dia, me parou no banheiro e disse “olha, me pagaram um saco de balas pra eu te pegar na saída, mas como você nunca fez nada pra mim e é uma das poucas que me ajudam, tô te avisando. Se eu fosse você, eu ia embora agora”. Eu fui pra sala, peguei minhas coisas e fui pra Diretoria e pedi pra ligar pra minha mãe, que veio me buscar. Eu lembro de nunca ter chorado tanto até aquele momento. Eu perguntava pra minha mãe qual era o problema comigo. Por que as pessoas não gostavam de mim?

Na oitava série minha perna começou a apresentar alguma penugem, loira, loira, loira. Minha mãe me proibiu de raspar, disse que iam ficar grossos e escuros, nem dava pra notar, melhor eu esperar um pouco até eles serem suficientemente aparecidos e a gente te leva na Ina (Ina, nossa depiladora). E eu é que não ia deixar de usar shorts naquele calor.

Um dia, numa dessas ocasiões que o professor falta e não tem substituto, ficamos todos no pátio, e quando crianças de 14 anos não têm nada melhor para fazer quando juntas, elas jogam “Verdade ou Desafio”. Numa das rodadas uma das pessoas – nem lembro se era menino ou menina – caiu comigo e me perguntou, com uma cara meio de nojo “Por que você não raspa a perna?” e todo mundo começou a rir. Eu lembro de ter juntado todas as forças que eu tinha comigo e responder algo como “minha mãe não deixa ainda” e em seguida me levantar e sair.

Não me lembro de ter me sentido mais humilhada do que naquele dia, aos 14 anos, até que em outra brincadeira, dessa vez na sala de aula, um menino ser desafiado a “ter coragem de beijar a stephanie”. Ele me roubou um selinho em meio a gritos de “uhhhhhh”, “ahhhh”, “corajoso!” e coisas do tipo. Naquele dia eu também senti que não havia humilhação maior. Hoje eu lembro disso e dou risada. Contei todas essas histórias várias vezes para os meus amigos dando risada. Mas na época doeu e doeu muito. O menino que roubou o beijo também era diferente. Mas ele era o diferente gatinho que faz muita bagunça e é meio bad boy.

Ele escondia a diferença dele de um jeito que eu não conseguia. Um dia, alguns anos depois, quando eu tinha 17, lembro de tê-lo encontrado no corredor da escola em que eu estudava, uma ETEC, e ele estava fazendo uma prova. Ele me disse que sentia inveja por eu ter conseguido estar onde eu estava e meu deu os parabéns.

Eu já chorei muito quando eu era adolescente. Já me perguntei mais do que o normal o que havia de errado comigo. Já quis me machucar porque só podia haver um problema comigo. Já quis simplesmente fazer bum e deixar de existir porque seria muito mais fácil. A coisa que eu mais queria era pertencer, mas eu não sabia como. E mesmo quando eu tentava, soava falso. Não era eu. Eu não convencia como outra pessoa.

Quando entrei na faculdade eu achei que os tempos de me sentir diferente tinham ficado pra trás. Eu finalmente estava pertencendo. Ao meu redor estavam tantas outras pessoas que já haviam se sentido como eu me sentia, tantas outras pessoas estranhas, diferentes, maluquinhas, nerds, que gostam de dançar ouvindo a abertura de Pokémon.

Era tão bom estar lá porque eu finalmente podia ser eu em um ambiente onde todos eram eles, de verdade, sem medo, sem máscaras. Eu não precisava mais ter medo de simplesmente ser. Eu encontrei amigos que se sentiam como eu, e que em toda a sua singularidade, respeitavam a minha própria.

Eu não sou especial. Eu falo de um jeito diferente, eu movimento as minhas mãos mais do que muita gente acha normal, eu tenho cara de criança mesmo tendo 25 anos, eu gosto de falar de batom e de produto pra cabelo com o mesmo amor com que gosto de falar de feminismo e gêneros. Isso não me torna especial. Mas é diferente. Porque todos somos diferentes. E mesmo quando a gente cresce, em diferentes níveis, é preciso pertencer. É preciso se enquadrar. Mas é preciso mesmo? Ou fazem a gente acreditar que é? É preciso de verdade ou é só medo, estranheza, dificuldade de lidar com o diferente?

Esses dias eu chorei perguntando o que havia de errado comigo, depois de muito tempo. Eu quis ser capaz de enfiar a mão dentro de mim mesma e tirar de lá tudo o que me faz singular, tudo o que me faz ser quem eu sou e outra vez eu só quis como qualquer outra pessoa. Eu quis me abrir inteira e fazer sair de lá tudo o que apontavam em mim. Quis gritar tão alto de um jeito que todas as minhas particularidades saíssem correndo, expulsas, acuadas, e nunca mais voltassem. Eu quis, de novo, ser outra menos eu.

É a coisa mais fácil do mundo machucar alguém. É a coisa mais simples apontar algo que cause estranheza. É a coisa menos trabalhosa que há dizer algo ruim sobre alguém e travestir de opinião sincera. É muito simples fazer doer algo em alguém. As pessoas dizem o que dizem porque podem. Porque é simples. Porque é só apertar um botão. É muito cômodo se sentir melhor com você mesmo apontando o que há de errado no outro. Não é necessário coragem, nem força, nem decência, nem rosto.

Mas é sim necessário força e coragem pra continuar com o rosto erguido exibindo todas as suas particularidades. Todas as suas diferenças. Todas as suas excentricidades. É muito mais simples desistir, aceitar, sofrer, se machucar, se esconder, fugir.

Eu não quero fugir. E eu não quero aceitar, e eu não quero me esconder. Eu sou quem eu sou. E eu não vou mudar. Ninguém deveria mudar. Ninguém deveria se esconder, fugir, aceitar, fingir, acuar-se. Ninguém. O problema não é nosso. É deles. Eles que lidem com a dificuldade em aceitar. Eles que lidem com a necessidade de martelar qualquer diferençazinha. Eles que se incomodem com tudo que lhes pareça estranho, errado, diferente, excêntrico, particular, fora da curva. Eu não vou me endireitar. Você não vai entrar na linha. Nós não vamos abaixar nossa cabeça. Ninguém deveria. E ninguém vai. Vamos continuar a ser diferentes. Estranhos. Únicos. Loucos. Singulares. Extraordinários. Satisfeitos. Confiantes. Felizes, por fim.